Formação de Pilotos
Daltonismo e Aviação: O Que É Permitido de Fato
O RBAC 67 exige reconhecimento de cores para CMA de 1ª e 2ª classe; a 5ª classe (piloto remoto) admite restrição operacional, e a 4ª não exige o teste.
Daltonismo não impede automaticamente voar no Brasil, mas o resultado depende da classe de CMA pretendida: 1ª e 2ª classe exigem reconhecimento de cores sem previsão explícita de restrição no texto da norma, enquanto a 5ª classe (piloto remoto) admite CMA com restrição operacional, e a 4ª classe nem exige o teste (RBAC 67).
O RBAC 67 usa a palavra “daltonismo”?
Não. O regulamento (Resolução ANAC nº 636/2021, Emenda nº 05) trata o tema como requisito de reconhecimento de cores, dentro da seção “Requisitos oftalmológicos” de cada classe de Certificado Médico Aeronáutico (CMA) — “daltonismo” é o termo popular para a dificuldade ou incapacidade de distinguir certas cores, condição que a medicina do trabalho avalia por meio de testes de percepção cromática (na prática clínica, o mais usado no Brasil é o teste de pranchas pseudoisocromáticas, popularmente conhecido por Ishihara — o RBAC 67 não nomeia um teste específico, apenas o resultado exigido).
O que a norma exige de cada classe de CMA?
O requisito muda conforme a classe, e a diferença entre elas é o ponto central para quem tem alguma dificuldade de percepção de cores:
| Classe de CMA | Quem precisa | Exigência de reconhecimento de cores |
|---|---|---|
| 1ª classe (PLA, PC, PTM) | RBAC 67, Seção 67.99, (c)(5) | Reconhecer cores misturadas em tabelas de senso cromático ou, no mínimo, as cores básicas isoladas usadas em aviação (amarelo, azul, verde, vermelho, branco, preto e âmbar) |
| 2ª classe (PP, PP-IFR, PBL, aluno piloto) | RBAC 67, Seção 67.139, (c)(5) | Mesma redação da 1ª classe |
| 4ª classe (CPA, PPL, aluno piloto de planador) | RBAC 67, Seção 67.219 | Não há exigência de reconhecimento de cores prevista nesta subparte |
| 5ª classe (piloto remoto/drone) | RBAC 67, Seção 67.259, (c)(5) | Mesma redação da 1ª/2ª classe, com cláusula de restrição explícita |
Um candidato daltônico é automaticamente reprovado na 1ª ou 2ª classe?
A norma não deixa isso explícito da mesma forma que deixa para a 5ª classe — não afirmar o contrário seria extrapolar o texto. O que se sabe com segurança, a partir de outras seções do próprio RBAC 67, é que o exame de saúde pericial em geral admite três resultados possíveis — apto, apto com restrição e não apto — e que o candidato tem direito de recorrer à ANAC a qualquer tempo, independentemente da classe (Seção 67.11, (c)). Como o requisito de cor da 1ª/2ª classe não traz a mesma cláusula de exceção redigida na 5ª classe, o caminho mais seguro para quem tem dúvida real sobre sua percepção de cores é passar pelo exame com um examinador credenciado e, se o resultado não for o esperado, avaliar o recurso administrativo previsto na norma em vez de presumir uma reprovação ou uma liberação que a norma não escreve de forma explícita para essas duas classes.
Por que a 4ª classe não exige o teste de cores?
O RBAC 67 simplesmente não lista o reconhecimento de cores entre os requisitos oftalmológicos da Seção 67.219, que rege o CMA de 4ª classe — usado por Piloto Aerodesportivo (CPA), Piloto de Planador (PPL) e aluno piloto de planador. Essa subparte é mais enxuta que a da 1ª e da 2ª classe também em outros pontos (não repete, por exemplo, a exigência de equilíbrio muscular ou de campos visuais na mesma extensão), refletindo um perfil de operação com menor exigência regulatória nesse ponto específico. Para o detalhe completo de quem precisa de cada classe, ver validade do CMA por classe.
Como funciona a restrição no CMA de piloto remoto (drone)?
Quando o piloto remoto não atinge o padrão pleno de reconhecimento de cores, a Seção 67.259, (c)(5) permite que a ANAC ou o examinador emitam o CMA de 5ª classe mesmo assim, averbando uma restrição de operação — o certificado passa a valer apenas para situações em que reconhecer cores não seja indispensável à segurança do voo. Essa é a mesma lógica de “apto com restrição” que aparece em outros requisitos do RBAC 67 (por exemplo, uso obrigatório de lentes corretoras): a limitação específica é compensada por uma condição operacional averbada no certificado, em vez de resultar automaticamente em reprovação total.
Existem outros requisitos de visão que se somam ao das cores?
Sim — o reconhecimento de cores é apenas um item dentro dos “Requisitos oftalmológicos” de cada classe (RBAC 67, Seções 67.99, 67.139 e 67.259). Os mesmos artigos também exigem, entre outros pontos: acuidade visual mínima (20/30 ou 20/20 conforme a classe e o olho), capacidade de leitura em escalas J1/J6, equilíbrio muscular ocular dentro de limites de dioptria prismática, ausência de heterotropia e campos visuais/pressão ocular/fundoscopia normais. Quem já fez cirurgia refrativa (LASIK/PRK) enfrenta outro requisito oftalmológico específico da mesma seção, com prazo de carência próprio. Um candidato pode atender perfeitamente ao requisito de cores e ainda assim precisar de avaliação adicional por outro item da mesma seção — a aptidão oftalmológica é avaliada como um conjunto, não item a item isoladamente.
Aplicação prática: o que fazer se eu tiver dúvida sobre minha percepção de cores
- Não presuma o resultado antes do exame — a diferença entre “não reconhecer nenhuma cor” e “ter dificuldade pontual em tons específicos” é grande na prática clínica, e só o exame de saúde pericial determina em qual situação o candidato se enquadra.
- Descubra qual classe de CMA a sua licença pretendida exige — ver a tabela acima e o guia de validade do CMA por classe; o mesmo candidato pode ter resultados diferentes conforme a classe pretendida (4ª classe nem exige o teste).
- Se o resultado não for o esperado, converse com o examinador sobre o que exatamente não foi cumprido — o mesmo raciocínio de qualquer resultado de CMA fora do esperado, detalhado em CMA: reprovação ou restrição médica.
- Considere o caminho do recurso à ANAC quando discordar do julgamento — direito previsto na Seção 67.11, (c), sem prazo de decadência.
- Se o objetivo é operar drone comercialmente, avalie desde já que a 5ª classe tem a cláusula de restrição mais favorável entre as quatro — útil para quem sabe de antemão que tem alguma limitação de percepção cromática.
Erros comuns sobre daltonismo e aviação
- Achar que “ser daltônico” impede voar em qualquer situação — a norma trata o tema por classe de CMA, com regras bem diferentes entre elas, e nem toda forma de dificuldade cromática é a mesma coisa clinicamente.
- Confundir a exigência de 1ª/2ª classe com a da 5ª classe — só a 5ª classe (piloto remoto) tem cláusula de restrição escrita explicitamente no RBAC 67 para esse requisito específico.
- Escolher a licença antes de saber a classe de CMA exigida — como a 4ª classe (planador/CPA) não exige o teste de cores, essa pode ser uma informação relevante no planejamento de carreira de quem já sabe da própria condição.
- Deixar de recorrer por achar que o resultado do exame é definitivo — o direito de recorrer à ANAC vale para qualquer resultado de exame de saúde pericial, “a qualquer tempo” (Seção 67.11, (c)).
Perguntas frequentes
- Daltonismo impede totalmente de ser piloto no Brasil?
- Não de forma automática e uniforme. O RBAC 67 exige reconhecimento de cores para CMA de 1ª e 2ª classe sem cláusula de restrição explícita nessas seções, mas a 5ª classe (piloto remoto) prevê expressamente CMA com restrição operacional para quem não atinge o padrão pleno, e a 4ª classe não exige o teste.
- Qual é a diferença de exigência de cores entre as classes de CMA?
- 1ª classe (Seção 67.99) e 2ª classe (Seção 67.139) exigem reconhecer cores misturadas ou, no mínimo, as básicas usadas em aviação, sem cláusula de exceção redigida no texto. A 5ª classe (Seção 67.259) tem a mesma exigência, mas com previsão explícita de CMA com restrição para quem não atinge o padrão. A 4ª classe (Seção 67.219) não lista esse requisito.
- O RBAC 67 exige o teste de Ishihara especificamente?
- Não. A norma fala em reconhecer cores misturadas em 'tabelas de senso cromático' ou, no mínimo, cores básicas isoladas — sem nomear um teste específico. O teste de pranchas pseudoisocromáticas (popularmente Ishihara) é o método clínico mais usado na prática para avaliar esse requisito, mas não é citado por nome no texto do RBAC 67.
- Quem precisa de CMA de 1ª classe para reconhecimento de cores?
- Piloto de Linha Aérea (PLA), Piloto Comercial (PC) e piloto de tripulação múltipla (PTM), segundo a Seção 67.13 do RBAC 67.
- Piloto de planador precisa passar em teste de cores?
- O CMA de 4ª classe, exigido de Piloto Aerodesportivo (CPA), Piloto de Planador (PPL) e aluno piloto de planador, não lista requisito de reconhecimento de cores na Seção 67.219 do RBAC 67.
- Posso recorrer se for reprovado no teste de cores?
- Sim. O direito de recorrer à ANAC vale para qualquer resultado do exame de saúde pericial, a qualquer tempo, sem prazo de decadência (RBAC 67, Seção 67.11, (c)).
- Um CMA com restrição por reconhecimento de cores impede voar comercialmente?
- Depende da classe e da restrição averbada. Para o piloto remoto (5ª classe), a norma prevê restrição limitada a situações em que o reconhecimento de cores não seja indispensável à segurança — o CMA continua válido dentro desse limite, não é uma reprovação total.
- As cores exigidas em aviação são as mesmas em qualquer classe de CMA?
- Sim, onde o requisito existe, a lista é a mesma: amarelo, azul, verde, vermelho, branco, preto e âmbar (RBAC 67, Seções 67.99, 67.139 e 67.259).
Resumo final
- O RBAC 67 não usa a palavra “daltonismo” — trata o tema como requisito de reconhecimento de cores, dentro dos “Requisitos oftalmológicos” de cada classe de CMA.
- 1ª classe (Seção 67.99) e 2ª classe (Seção 67.139) exigem o reconhecimento de cores sem cláusula de restrição explícita no texto da norma.
- 5ª classe, exclusiva de piloto remoto (Seção 67.259), tem previsão explícita de CMA com restrição operacional para quem não atinge o padrão pleno.
- 4ª classe (Seção 67.219, CPA/planador) não lista esse requisito entre os oftalmológicos.
- O direito de recorrer à ANAC (Seção 67.11, (c)) vale independentemente da classe e do resultado do exame.
Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação de um médico examinador credenciado pela ANAC nem a orientação direta da Agência sobre o seu caso específico. Consulte sempre o aviso legal antes de qualquer decisão sobre sua situação médica ou operacional.
Referência: BRASIL. Agência Nacional de Aviação Civil. RBAC 67: Requisitos para Concessão de Certificados Médicos Aeronáuticos. Resolução ANAC nº 636, de 28 de setembro de 2021 (Emenda nº 05).